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‘Santo Padre, sou evangélico, mas eu te amo’

Postado por: 16/01/2018 0 Comentários 7294 views

A Jornada Mundial da Juventude, que aconteceu no Rio de Janeiro, em 2013, deixou muitas marcas nos corações dos brasileiros, de todos os que participaram do evento e, até mesmo, daqueles que acompanharam a visita do Papa Francisco ao Brasil através dos meios de comunicação.

Porém, uma imagem inusitada chamou a atenção de todos. Um jovem chamado Eduardo Campos, na época aos 19 anos, ergueu um cartaz no qual estava escrito: “Santo Padre, sou evangélico, mas eu te amo. Ore por mim e pelo Brasil. ‘Tu és Pedro’”.

Mas, a história de Eduardo com a Igreja Católica teve início meses antes da JMJ, justamente quando o então Papa Bento XVI renunciou ao papado. “Fiquei intrigado com aquela renúncia e me perguntei o que aquele velhinho de veste branca, lá em Roma, tinha de tão importante. Para os evangélicos, o Papa não tem qualquer importância. Não temos interesse em saber quem ele é e o que ele faz, mas com todas aquelas notícias, me perguntava o que seria o Conclave e o que era a Igreja Católica. No meio evangélico, fala-se apenas das coisas ruins da Igreja. Então, comecei a pesquisar, a ler sobre quem era o Papa, qual sua função, quem foi São Pedro, e entendi o trecho de Mateus (6,18) que fala do primado de Pedro. Compreendi o que nunca haviam me contado”, afirmou Eduardo.

Com tantas dúvidas e questionamentos, o jovem começou a pesquisar sobre a História da Igreja. “Estudei um pouco sobre a Reforma Protestante, vi os motivos, não como crítico ou julgador, mas sim com o olhar histórico. Observei de que forma cada lado agiu e reagiu, os motivos de ambos, e vi que a ‘maquete’ que me mostraram da Igreja Católica, mesmo sendo uma instituição com falhas humanas, não era um ‘monstro’ que iria me devorar. Comecei a enxergar a Igreja com outros olhos e a gostar dela. Foi quando veio a JMJ. Logo pensei: ‘o Papa virá e quero conhecer essa Igreja. Vou participar’”, exclamou.

Antes de chegar à Praia de Copacabana, no dia 27 de julho, Eduardo visitou uma de suas bisavós, a única católica na família. “Mostrei a ela o cartaz; ela ficou muito feliz e me parabenizou”, disse.

Um evangélico rumo à JMJ

Decidido, ele ‘embarcou’ sozinho em direção à Copacabana, onde o Papa Francisco conduziria a Vigília de Oração com os Jovens. “Saí de Turiaçu e cheguei à estação de Coelho Neto. Até pensei em desistir, mas algo me incomodava. Peguei o metrô e segui, mesmo sem saber como chegar. No caminho, encontrei muitos voluntários que sempre me diziam ‘vem com a gente’. Mesmo quieto, alguém sempre perguntava de onde eu era e qual era a minha igreja. Ao responder, sempre vinha a surpresa. Eu explicava que queria conhecer e que todos éramos filhos de Deus”, recordou.

Aos poucos, Eduardo se ‘enturmou’ na JMJ. Começou acompanhando os voluntários, até se tornar um também. Uma de suas contribuições na Jornada foi no cordão de isolamento. “Quando percebi, estava no meio da JMJ. Fiz amizades, dormi na praia só de casaco, usei o cartaz para me cobrir e acordei às 4h da madrugada congelando”, lembrou, entre risos.

Para ele, a vigília foi um momento inexplicável. “Eu adorei a Jesus Eucarístico sem saber o que estava acontecendo. Minhas mãos se elevavam, minha voz louvava. Rezei a Oração do Pai Nosso, mas me calei na Ave Maria, protestante não sabe essa oração. Quando todos se ajoelhavam, eu também me ajoelhava. Num determinado momento, comecei a chorar, enquanto isso, os voluntários me consolavam, faziam o sinal da cruz em minha cabeça e eu ainda não entendia o que eles faziam”, contou.

Em meio aos milhares de jovens, um evangélico tinha um desejo especial. “Eu queria entregar para o Papa aquele cartaz, feito com várias folhas de A4, editadas no Word, coladas uma ao lado da outra. Depois de pronto, coloquei numa sacolinha amarela de supermercado. Mostrei para algumas pessoas que conheci na JMJ; elas choravam e eu não entendia. Para mim, falar que amo o Papa não era algo extraordinário. Enquanto cristão, devemos amar ao próximo”, destacou.

Segundo ele, a unidade da Igreja foi o que mais chamou sua atenção. “Eu nunca fui tão bem acolhido como na JMJ, um povo extremamente caloroso, uma festa linda. Eu me emocionei porque vi pessoas de todos os lugares, de culturas diferentes e todos unidos, todos sabiam o que fazer nas orações e na missa. Achei isso fantástico e percebi que essa é a verdadeira unidade”, frisou.

Depois da JMJ

Após o término da Jornada Mundial da Juventude, a vida seguiu. Mas algo ainda incomodava Eduardo. “Acabou a Jornada e continuei evangélico, continuei na minha Igreja, participando ativamente. Por conta do cartaz, tive complicações, obviamente não gostaram. Porém, fui ‘levando’, até o momento em que eu passei a me sentir um ‘estrangeiro’, um ‘peixe fora d’água’”, argumentou.

De acordo com ele, no período da Jornada, era difícil compreender o motivo de sua ação ter gerado grande repercussão. “Não conseguia entender tamanha repercussão. Porém, depois que me inseri no contexto, comecei a enxergar com os olhos de quem está dentro. Hoje eu compreendo”, disse.

Segundo Eduardo, os estudos sobre a fé, principalmente via internet, através dos vídeos do padre Paulo Ricardo e da página Escolástica da Depressão (EDD), foram fundamentais em seu processo de conversão. “Depois do que fiz na JMJ, muitas pessoas passaram a me procurar e a me catequizar, mas tudo com amor”, relatou.

Desde então, ele passou a professar a fé católica. Atualmente, ele atua na Paróquia Santo Antônio, em Brás de Pina. Mas o sonho de Deus para o jovem convertido é o mergulho em águas mais profundas. “Eu quero ser padre. Não é uma fuga ou medo de encarar a vida e ter uma família; ambas as vocações são sublimes. Mas a gente sabe quando existe um chamado de atender ao próximo, de ser porta da misericórdia para o outro. Participar do sacerdócio de Cristo é deixar-se ser acolhido por Deus e abandonar-se nos braços d’Ele”, ressaltou.

Aos 23 anos, pensando em ingressar no Seminário de São José, ele ingressou no Grupo Vocacional Arquidiocesano para o discernimento vocacional. “Quando Deus nos chama, Ele toca no nosso coração e nos cobra. Mas precisamos saber o momento certo. Eu sei qual é o meu chamado, porém, também preciso amadurecer na fé, conhecer mais a realidade da Igreja e seus carismas, ser missionário e levar meu testemunho aonde me chamarem”, concluiu.

Priscila Xavier e Symone Matias

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Rádio Catedral

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