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Músicos católicos: memória da fé

Postado por: 28/06/2017 0 Comentários 624 views

O que a música e a memória têm de próximas? De que maneira podemos afirmar que todo músico cristão é um guardião da memória da Igreja? É o que pretendo demonstrar neste artigo.

Na Grécia antiga, cada arte tinha sua musa inspiradora: Euterpe – a que dá jubilo (musa da poesia), Terpsícore – a que adora dançar (era a musa da dança), Clio – a que confere fama (musa da História) e assim por diante. Mas não temos a musa da música totalmente independente. Todas de certa forma estão mergulhadas no fazer musical. Ouvi uma vez do professor Antonio Jardim, na aula de filosofia da música, que não temos a “musa das músicas” porque como o próprio nome sugere: a música é a musa de todas as musas.

Na mesma Grécia antiga surgiram os primeiros músicos trovadores: os aedos. Os aedos eram artistas, trovadores que iam de cidade em cidade narrando pelo canto, sustentado por um instrumento chamado forminx. Cantavam as epopeias do povo.

O mais famoso aedo foi Homero do qual temos a Ilíada e Odisseia, exemplos não só de narrativa literária mas também um exemplo de todo retrato cultural, religioso e social do povo e da época.
Na idade média, o trovadorismo deu continuidade a esta prática itinerante de sustentação da memória do povo europeu através de seus bardos e menestréis. E nos Estados Unidos da América, na gênese da cultura folk, encontramos muitas dessas canções trazidas por imigrantes irlandeses, escoceses e ingleses. Paralelas a elas temos o nascimento das expressões musicais da cultura afro-americana nas canções de trabalho entoadas pelos negros nos campos de colheita, pela música gospel (spirituals) e pelo blues.

Também no Brasil encontramos estes poetas cantadores em uma expressão muito popular. “Os repentistas nordestinos são poetas que vivem do dom de criar versos improvisadamente em feiras, festas e festivais. Representantes da tradição poética nordestina, transmitem através da oralidade valores, saberes, desejos e histórias de sua população. Portadores da memória coletiva do Sertão, estes poetas (re)produzem o habitus das suas pequenas cidades do interior onde quer que estejam, atualizando essa tradição à conjuntura cosmopolita dos grandes centros urbanos”.

Mais recentemente podemos destacar também o movimento rap americano. O rap, que quer dizer ritmo e poesia em inglês, surgiu como expressão dos americanos de classes sociais menos favorecidas, na maioria negros, e que juntavam à batida constante uma letra não raro improvisado sobre a realidade que viviam. Assim, todo seu cotidiano violento e pobre ganhava corpo artístico. As famosas batalhas de rap eram verdadeiros tours de force de improviso e criatividade. O impacto para a cultura mundial fountain grande que se tornou um elemento que misturado a outras estéticas está presente em grande parte da música pop feita a partir dos anos 90.

Música e memória sempre andaram juntas. Também na cultura cristã. Tanto na Igreja do Oriente quanto na Latina as expressões musicais religiosas apesar de variáveis mantinham viva a continuidade do anúncio evangélico e a memória da tradição apostólica. Santo Agostinho no séc. IV escreveu um tratado chamado De Música onde fala da oratória, entonação e métrica. E cita com frequência nas suas confissões a expressão musical da Igreja de Milão, que aos cuidados do bispo Ambrósio, enquanto resistiam as perseguições do império. Ambrosio nos deixou além do exemplo de santidade um legado musical: o canto ambrosiano. Uma das mais antigas heranças da cultura cristã. Como qualquer cantochão, o canto ambrosiano é monofônico e a capella. “Em relação ao gregoriano, o canto ambrosiano é mais variado em comprimento, ambitus e estrutura”.

Quando um músico católico toca em uma missa ou grupo de oração ou qualquer pastoral, ele está atualizando, pela música, toda a experiência espiritual, a mística cristã e a herança da tradição apostólica. Se não faz isso, não oferece uma música em consonância com a sua fé.

Lembro de uma vez ter lido a entrevista da cantora americana Aretha Franklin que ao ser questionada do por quê estar se distanciando da Igreja e da música gospel, respondeu:

– Eu não abandonei a Igreja. Todas as vezes que subo em um palco, a Igreja sobe comigo!

Músico católico: toda vez que você toca e canta deve tocar e cantar com a Igreja!

Augusto Cezar

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Rádio Catedral

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