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Jovens: uma opção preferencial

Postado por: 11/10/2018 0 Comentários 75 views

Iniciamos o mês de outubro, e como alguns meses são muito expressivos e temáticos na Igreja no Brasil, o de outubro não é diferente. Mês do Rosário, dedicado às missões, convocando todo o povo de Deus a se fazerem missionários do Evangelho, que se inicia com a Semana Nacional da Vida e a celebração da Rainha e padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida; mês que rezamos pelas nossas crianças, para que tenham um futuro resguardado pela fé e esperança. Enfim, muitos são os motivos para rendermos graças ao Pai neste mês que se inicia, mas uma intenção especial requer nossa atenção, pois entre os dias 3 e 28 estará acontecendo, em Roma, o Sínodo dos Bispos sobre a Juventude, com o tema: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

O tema foi estabelecido após uma consulta às Conferências Episcopais, às Igrejas Orientais Católicas, a União dos Superiores Gerais e a sugestão dos padres da última Assembleia Sinodal. Reúne, num único tema, as preocupações de bispos, padres, religiosos e religiosas, e até das Igrejas Orientais que representam um grande número de homens e mulheres preocupados com a evangelização dos jovens.

Pesquisas revelam que um bilhão e 800 mil pessoas entre 16 e 29 anos, isto é, ¼ da Humanidade, são os jovens do mundo. Só os números nos causam perplexidade, pois como anda a vida de fé e de compromisso comunitário desses jovens? No Instrumento de Trabalho do Sínodo, os padres sinodais puderam encontrar a descrição de sua variedade, suas esperanças e dificuldades, pois foi um momento de convergência da escuta de todos os componentes da Igreja e também de vozes que não pertencem a ela.

O Documento Preparatório, elaborado para consultar a Igreja no mundo inteiro, inicia dizendo que “através dos jovens, a Igreja poderá ouvir a voz do Senhor que ressoa, inclusive nos dias de hoje. (…) ouvindo as suas aspirações, podemos entrever o mundo de amanhã que vem ao nosso encontro e os caminhos que a Igreja é chamada a percorrer”. O Papa também ouviu os jovens reunidos na semana anterior ao Domingo de Ramos, tanto presencialmente como virtualmente. Tudo isso foi acrescentando dados ao documento preparatório para a elaboração do instrumento de trabalho.

Esse material, enviado a todas as dioceses do mundo, foi estruturado em três partes: reconhecer, interpretar e escolher, buscando oferecer as chaves de leitura da realidade juvenil, baseando-se em diferentes fontes, entre as quais um questionário on-line que reuniu as respostas de mais de cem mil jovens.

Depois de viver neste último final de semana um belo encontro com os jovens da região junto aos Arcos da Lapa, aqui no Rio de Janeiro, e em preparação ao Dia Nacional da Juventude, somos chamados a refletir e a rezar juntos para que este tempo dedicado aos jovens nos ajude a esclarecer os caminhos a serem percorridos para que, jovens evangelizados, sejam sinais e evangelizem outros jovens.

A primeira parte trata dos “Jovens no Mundo de Hoje”, mundo que se transforma rapidamente em todos os sentidos. Este mundo que é multicultural e multirreligioso. Por ser de diferentes tradições religiosas, representa um desafio e uma oportunidade: pode aumentar a desorientação e a tentação ao relativismo, mas, ao mesmo tempo, cresce a possibilidade de confronto fecundo e de enriquecimento recíproco. A questão da multiculturalidade aparece nas chamadas “segundas gerações”, ou seja, jovens que crescem numa cultura diferente daquela em que cresceram seus pais. É o forte movimento migratório pelo mundo afora. Aos olhos da fé parece que este é um sinal do nosso tempo, o qual exige um crescimento na cultura da escuta, do respeito e do diálogo, enfim, da cultura do encontro. Outros elementos de análise que o texto sugere: Como vivem os jovens nas diversas partes do mundo? Como é trabalhada a inclusão dos jovens? Grande desafio representa o grande número de jovens que “nem estudam, nem trabalham, nem se educam para uma profissão”. Quais são as referências para os jovens que sejam próximas, credíveis, honestas?

Portanto, ao querermos responder esses desafios lançados pelo Papa Francisco, outros, de nossa realidade, também vão nascendo: o que querem os jovens de hoje? Sobretudo, o que buscam na Igreja? Em primeiro lugar, desejam uma “Igreja autêntica”, que brilhe por “exemplaridade, competência, corresponsabilidade e solidez cultural”, uma Igreja que compartilhe “sua situação de vida à luz do Evangelho, ao invés de fazer pregações”, uma Igreja que seja “transparente, acolhedora, honesta, atraente, comunicativa, acessível, alegre e interativa”. Enfim, uma Igreja “menos institucional e mais relacional, capaz de acolher sem julgar previamente, amiga e próxima, acolhedora e misericordiosa”.

Há também quem não pede nada à Igreja ou pede que seja deixado em paz, considerando-a uma interlocutora não significativa ou uma presença que “incomoda e irrita”. Um motivo para essa atitude está nos casos de escândalos sexuais e econômicos, como bem nos recordou o Santo Padre dias atrás, sobre os quais os jovens pedem à Igreja que “reforce sua política de tolerância zero”. Outro motivo está no despreparo dos ministros ordenados e na dificuldade da Igreja em explicar o motivo das próprias posições doutrinais e éticas diante da sociedade contemporânea.

Diante desses e outros desafios emergentes na evangelização de nossos jovens, devemos ter nítidos alguns métodos que podem nos ajudar nesse campo tão fértil e laborioso. A escuta: os jovens querem ser ouvidos com empatia; Acompanhamento: espiritual, psicológico, formativo, familiar e vocacional; Conversão: seja de tipo religioso, sistêmico, ecológico e cultural; Discernimento: uma das palavras mais usadas no documento, seja no sentido de uma “Igreja em saída” para responder às exigências dos jovens, seja como dinâmica espiritual; Desafios: discriminações religiosas, racismo, precariedade no trabalho, pobreza, dependência de drogas e álcool, bullying, exploração sexual, corrupção, tráfico de pessoas, educação e solidão; Vocação: repensar a pastoral juvenil; Santidade: o documento se concluiu com uma reflexão sobre a santidade, “porque a juventude é um tempo para a santidade”. Que a vida dos santos inspire os jovens de hoje a “cultivar a esperança” para que – como escreve o Papa Francisco na oração final do documento – os jovens, “com coragem, tomem as rédeas de sua vida, almejem as coisas mais belas e mais profundas, e mantenham sempre um coração livre”.

Não podemos esquecer a Conferência de Puebla, no México, em (1979), que assinalou: “Lembremos que a opção preferencial, definida em Puebla, é dupla: pelos pobres e pelos jovens. É significativo que a opção pela juventude seja, de maneira geral, totalmente silenciada”. Essa constatação é sintomática e nos leva a repensar seriamente sobre as práticas pastorais que tivemos no passado e o porquê do “silêncio” na atenção que deveria ter sido dada à juventude.

A convocação do Sínodo é uma atitude querida pelo Papa Francisco, que nos trará questões fundamentais para toda a vida pastoral da Igreja, nesta opção que a mesma Igreja é agora universalmente chamada a assumir. Não será um evento sem perspectivas, mas, ao contrário, nos trará incentivos e possibilidades de amadurecimento na ação missionária junto à juventude. O empenho de todos os que compõem o povo de Deus é condição sem a qual essa atenção, maternal e acolhedora, não terá o êxito querido pelo Santo Padre. Desde já, unamos nossa torcida para que o Sínodo projete luzes para compreendermos mais profundamente os muitos aspectos relevantes do mundo dos jovens e, assim, podermos levar a eles o Evangelho.

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

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Rádio Catedral

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