Espiritualidade

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07/06/2018 0 Comentários 124 views

“Se alguém tem sede, venha a mim e beberá, aquele que crê em mim! Conforme a Palavra da Escritura: Do seu seio jorrarão rios de água viva” (Jo 7, 37-38). Com estas palavras, no dia 15 de maio de 1956, o Papa Pio XII apresentou ao mundo a Encíclica “Haurietis Aquas”, sobre o culto do Sagrado Coração.

Nesta Encíclica, o Papa buscou recordar que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus trás ao coração do fiel inúmeros benefícios e “riquezas celestiais”. A devoção que encontrou em Santa Margarida Maria Alacoque, uma grande propagação, aparece antes no Evangelho em dois grandes acontecimentos: primeiro destacamos os gestos de São João Evangelista, quando recosta sua cabeça sobre o peito de Jesus na última ceia – “Ele, então, reclinando-se sobre o peito de Jesus” (Jo 13,25), e no momento da sua morte na cruz, quando o soldado abriu o seu lado com a lança – “mas um soldado traspassou-lhes o lado com a lança e imediatamente saiu sangue e água” (Jo 19,34).

Quando se está diante do altar central na Basílica de São Pedro, em Roma, e gira olhar a esquerda, se espanta com uma grande imagem, de mais de cinco metros de altura, de um soldado que está girado para o altar central. É a estátua do legionário romano que traspassou o lado de Jesus, chamado de Longino em italiano, e conhecido no Brasil como São Longuinho. Esta bela obra de arte do século XVII (1628-1638), feita por Gian Lorenzo Bernini (o mesmo que fez a Praça de São Pedro), conservava a relíquia da ponta desta lança que perfurou o Senhor. Porém, este soldado esculpido em um único bloco de mármore não tem mais a imagem de um soldado, mas de um convertido; já não usa um elmo e nem uma armadura, mas olha Cristo sobre a cruz e diz: “verdadeiramente este homem era filho de Deus”. Esta belíssima imagem de arte pode representar também o nosso momento, o momento em que a Humanidade olha e venera o lado aberto de Cristo, que ainda hoje jorra sangue e água. Lugar de nascimento da nossa Igreja Católica, e que por meio dela seria amplamente divulgada a devoção.

O Papa Pio XII quando escreveu a encíclica quis reforçar que ainda em nosso tempo, no qual tantos males transtornam as pessoas, as nossas famílias e a nossa nação, não pode haver um caminho mais eficaz do que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. “Que homenagem religiosa mais nobre, mais suave e mais salutar do que este culto que dirige a todos à própria caridade de Deus? Que pode haver de mais eficaz do que a caridade de Cristo para estimular os cristãos a praticarem em sua vida a lei evangélica, sem a qual não é possível haver entre os homens paz verdadeira, como claramente ensinam aquelas palavras do Espírito Santo: Obra da justiça será a paz(Is 32,17)?”

Esta preciosa devoção não pode ser apenas uma devoção pessoal, mas ela deve ser essencialmente eclesial, pois a Igreja gerada deste coração nos convida a um apostolado de oração e entrega pelos irmãos. “Todos que se gloriam do nome de cristãos e lutam ativamente por estabelecer o reino de Jesus Cristo no mundo, considerem a devoção ao coração de Jesus como bandeira e manancial de unidade, de salvação e de paz”. A devoção da Igreja a este precioso coração deve ser expressada também de forma atual e concreta. Rezando pelo nosso país, que neste momento atravessa um período difícil e triste: que nossas orações alcance de Deus a graça da paz e da justiça verdadeira; rezar pelas famílias que constantemente são atacadas por financiamentos destrutivos e ideológicos; que de modo especial os jovens redescubram na família constituída por Deus à realização de suas vocações, à felicidade e a santidade; rezar pelos sacerdotes que no dia 7 de junho realizarão o dia de oração pela santificação do clero: que possamos ser bons pastores, com o coração sempre mais configurado ao coração de Cristo, com a confiança e a coragem de testemunhar ao mundo que vale a pena ser “padre”; por fim, rezar uns pelos outros, para que, a exemplo dos santos, possamos buscar o que é “agradável ao Deus”.

Finalmente, que a devoção ao Sacratíssimo Coração de Cristo produza muitos frutos em toda a Igreja e em todo o mundo e, unido ao Imaculado Coração de Maria, que esteve intimamente ligado aos sofrimentos de seu Filho, animados de grande esperança, façamos com que “aumentem, cada vez mais, a devoção dos fiéis ao sagrado coração de Jesus, e assim se estenda mais por todo o mundo o seu reino suave; esse “reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz” (Missal Rom. Prefácio de Cristo Rei).

Padre Arnaldo Rodrigues

Editorialista do Jornal Testemunho de Fé

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11/05/2018 0 Comentários 36 views

Iniciamos o mês de maio celebrado no tempo pascal contemplando as alegrias da ressurreição e dedicado pela tradição à figura materna de Maria, a mãe de Jesus. Esse mês é muito oportuno para sabermos que Deus escolheu uma virgem para nos dar o Salvador, o Redentor. Lembramos que Nossa Senhora é a mãe, a escolhida, é aquela que gerou, protegeu e cuidou de Jesus. É Aquela que esteve ao lado de Jesus até na cruz, quando ele a entrega aos cuidados de João. Todo o percurso feito por Maria, foi para cuidar de Jesus e protege-lo e por isso ela merece o nosso carinho, respeito, a nossa filial devoção e a nossa gratidão.

Maria é aquela que esteve e sempre está atenta as necessidades dos filhos. Recordemos do episódio das bodas de Caná, relatado pelo evangelista João. Quando esse vinho falta é então, num momento crucial, que a mãe percebe que faltaria vinho na festa e intercede para que seu Filho faça alguma coisa. O evangelista está nos narrando aquele que é o papel de uma mãe grandiosa, que entendeu de uma forma plena aquele que deve ser o papel dos discípulos de Cristo. Ela, na condição de perfeita discípula do Senhor, aprendeu na Escola de seu Filho as obras de misericórdia e por isso ela transmite a nós o que precisamos fazer como discípulos de Jesus.

A sua mensagem é a própria atenção que ela dedica às necessidades da Igreja e, sobretudo daqueles que são marginalizados, daqueles que estão sem o vinho de seu Filho, para que possamos levar a eles o vinho da solidariedade, o vinho da esperança, o vinho da reconciliação, em uma palavra: o vinho da Presença do Esposo, ou seja, o vinho da Misericórdia. E aqui não é preciso lembrar que Cristo está presente de inúmeras formas no seio da Igreja e o próprio Documento de Aparecida (n. 240-275) já nos apresentou longamente uma próspera lista dos lugares onde podemos encontrar o noivo.

A autêntica Igreja de Jesus Cristo, não fica sem a mãe, pois é Ela que lhe apresenta as necessidades reais da Igreja e é ela quem nos diz o que devemos fazer: “fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5). O evangelista põe na boca de Maria a fala do faraó (Gn 41, 55), aquele que é tido como o Rei no Antigo Testamento. Um rei que escraviza e oprime, dá lugar à Rainha, que intercede e abençoa. Em Maria a Igreja desde o início de sua história ouviu a voz da Rainha, aquela que cheia de graça nos inunda e preenche dessa mesma graça.

Com base na espiritualidade de São Luís Maria Grignion de Montfort, cuja memória facultativa celebramos dia 28 de abril aprofundemos que “se Deus quis vir aos homens por meio de Maria, porque nós deveríamos querer outro meio para ir até Ele, senão por meio da Santíssima Virgem? Além do que, Cristo na cruz, quando chega a sua Hora, o momento de sua Glória, Ele entrega sua mãe como mãe da Igreja. Faz-se forte mais uma vez a simbologia das palavras “mãe” e “mulher”.

Ela é a “mulher” que como Nova Eva restaura e traz de volta a humanidade pecadora para Cristo, para a Aliança verdadeira. Mais que uma lembrança oportuna sobre Eva, “mulher” é um título glorioso e singelo, do único gênero capaz de gerar vida. Ela como “mãe” olha com Misericórdia para estes que caminham para longe de seu Filho e os traz de volta. De maneira maravilhosa é ela que retira o coração de pecado dos seus filhos, toma para si e coloca no lugar o seu Coração Imaculado e apresenta então a Jesus a sua “esposa” totalmente sem nenhuma mancha. É nos entregando a esta mãe misericordiosa, que seremos capazes de nos apresentar dignamente diante do Senhor.

É precisamente por isso que a Igreja de todos os tempos é chamada a ouvir a voz da Mãe que pede para que escutemos a voz do Mestre (Kýrios), escutemos a Palavra encarnada, a vida que se manifestou, a vida que vimos com nossos olhos, que contemplamos, que nossas mãos apalparam… (cf. 1Jo 1, 1-3). O apelo de Maria em Caná e na Cruz é um apelo à fé, e nas duas ocasiões a Igreja houve o seu chamado: “os seus discípulos creram nele” (Jo 2, 11); “aquele que viu dá testemunho e seu testemunho é verdadeiro…” (Jo 19, 35).

Quando a Igreja ouve a voz da “mãe e mulher”, da Rainha e Nova Eva, então essa Igreja é capaz de encher as talhas até a “borda”, pois a Misericórdia de Deus sempre se manifesta de forma abundante. Essa é a missão da Igreja: ser guiada pela mãe, ouvir a voz do Filho, encher as talhas com a água da misericórdia e deixar que o Filho ofereça o vinho bom, o seu próprio Corpo e Sangue em resgate por cada um de nós. Sua missão é ser sacramento dessa Presença e deixar que o Filho manifeste toda a abundância de sua Misericórdia.

“Quem têm ouvidos para ouvir ouça! ” (Lc 8, 8) A fidelidade a Cristo passa inexoravelmente pela escuta do apelo de Maria. Ela é a perfeita imagem da Igreja. Quem não entra nessa escola de fé nunca encontrará o Filho que diz: “Eis ai a tua mãe” (Jo 19, 27), pois Ele está na cruz e à cruz Ele nos chama. A cruz é ponto de encontro de falsos e autênticos discípulos. Nela os discípulos autênticos renovam suas forças, os falsos fogem e se escondem. De fato, Ele ressuscitou, mas não negou sua missão.

Igreja, qual é tua missão? Salvar! Sua missão é ser como Maria, aquela que aponta para Cristo e que é sinal de que se não ouvirmos sua Palavra de Misericórdia não seremos a Igreja verdadeira, seremos apenas mais uma “placa” em meio a tantas que no século XXI se mostram ao povo e que não transmitirá a luz (Jo 1, 9) que deve transmitir. O modelo do cristão é Aquela que permaneceu de pé com a Igreja (Jo 19, 25).

A missão de todos nós é que o mundo acredite que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, rico em Misericórdia e para que crendo tenha vida e vida em abundância. Se em nossa vida, não cabe o sofrimento, os sacrifícios pelo nome de Jesus, por ser Ele quem é, como o mundo irá acreditar, naquilo que anunciamos?

Caminhemos todos os 31 dias do mês de maio sob a Materna proteção de Nossa Senhora. Aqui celebramos solenemente esse mês no Santuário Basílica de Nossa Senhora da Penha. Dedilhemos também diariamente em nossos terços os mistérios da salvação e da redenção. Rezemos em especial pela paz e pelas vocações sacerdotais em nossa Arquidiocese. Sejamos discípulos como Maria, de uma “Igreja em saída” que cura como “hospital de Campanha”. Que neste mês de maio, possamos nos aproximar mais daquela que foi mãe, esposa, catequista e cristã. Maria, mãe de Deus, rogai por nós!

Cardeal Orani João Tempesta

Arcebispo da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

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