Espiritualidade

20/09/2017 0 Comentários 166 views

Duas Festas do Calvário: A Exaltação da Santa Cruz e a Virgem das Dores

 

Nestes dias de setembro entre o fim do inverno e início da primavera a Igreja celebra a Festa (14) e a memória (15) do Calvário. Mas, não se trata de um simples retorno.

A Sexta-feira Santa é reproposta à luz da plenitude da Páscoa.

Revisita-se o Calvário com as lanternas poderosas e incisivas da Realidade do Ressuscitado. Ouve-se agora o Aleluia Pascal em plena escuridão do tenebroso ‘locus mortis Domini Jesu Christi!’

Ao contrário da sexta-feira santa, agora a Igreja toma posse dos tesouros escondidos daquele dia, sem perder, porém, a visão realista do mistério.

Por isso duas dimensões se abraçam: de um lado, a exaltação da Cruz, Mistério da Alegria na morte, de outro, a Mãe angustiada e triste com os sofrimentos atrozes do seu Divino Filho.

‘Toda a nossa glória está na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo. N’Ele está a nossa salvação, vida e ressurreição. Por Ele fomos salvos e livres’ (Antífona da Missa)

Esta expressão oriunda de duas grandes Tradições do Novo Testamento: a teologia da Tradição Paulina:

‘Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo’ (Gal 6,4).

E, sobretudo aquela Cristologia, o conhecimento de Cristo, advinda do último Evangelho, o de São João:

‘Assim como Moisés elevou a serpente no deserto, também o Filho do homem será elevado, 15para que todo aquele que acredita tenha n’Ele a vida eterna’ (Jo 3, 14).

E, ainda:

‘E eu, quando for levantado da terra, todos atrairei a mim’. (Jo 12,32).

A Festa da Exaltação da Cruz não representa o gosto pervertido pelo sofrimento, à maneira dos ‘masoquistas’. Ao contrário, a luz esplêndida desta Festa apresenta o mistério essencial que se esconde em cada Calvário, aquele de Cristo, mas também o de cada cristão e de todos os seres humanos. O sofrimento e a morte humanos foram redimidos e elevados a condição de ‘sacrifício’ agradável a Deus. Eles nos alçam até a presença de Deus!

A Cruz, lugar de Amor profundo e glorioso de Deus por nós:

Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele (Jo 3, 16s).

Sim, a Luz que emana da Cruz e que podemos agora ver plenamente a partir da consciência do Ressuscitado, é a ‘Amoris Glória’, a glória luminosa de um Amor ‘mais forte que a morte’ (Ct 8,6).

Trata-se de uma força que não possui contrastes. Que se expande por todo o Universo. E, no Calvário, naquela Sexta-feira, tudo isso estava ‘encoberto’ pela dor, pela angústia, por sob os escárnios e as ironias e blasfêmias dos inimigos.

Todos estes significados são de suma importância, de relevância fundamental para a nossa experiência espiritual. Não resistimos à Cruz de Cristo, posta às nossas costas, por convite dele:

‘Então disse Jesus aos seus discípulos: Se alguém quiser vir após mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-me’ (Mt 16,24).

Na Cruz ocorre a mais profunda aproximação entre Deus e os homens.

A dor, o sofrimento, a humilhação, e por fim, a morte, previstas à natureza humana de pecado foi plena e integralmente assumidas pelo Amor que salva. Jesus releva-nos a sua integral ação de Cordeiro, Sacerdote e Altar!

Nesta festa acendem-se as lâmpadas escatológicas:

Crê n’Ele, siga-O até o Calvário, e na morte d’Ele encontrarás a VIDA, que brota do Amor do Pai, entregue-nos no Mistério de seu Divino Filho, Crucificado e Morto por nós!

Nosso luto e dor por causa do Evangelho foram revestidos de misteriosa Luz e de Derradeira Vitória!

Mas, a Mãe, aos pés do Calvário? Junto à Cruz?

Sempre a Virgem Maria é a melhor e mais nítida tradução, seja dos Mistérios Divinos revelados a nós, seja da verdadeira e justa reação humana à escatológica Revelação da Vontade de Deus a nosso respeito.

E junto à cruz de Jesus estava sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Cléopas, e Maria Madalena (Jo 19,25).

Na memória da Virgem adolorada, 15 de setembro, temos senão a outra face da moeda.

Ele exemplifica o cristão que permanece unido a Cristo, em todas as circunstâncias da vida. Na obscuridade da Cruz, a Mãe consola o Filho com sua presença e manifesta a Igreja, que se afaste da tentação de chegar à glória d Filho, sem participar pessoalmente de sua Paixão.

Ela, fiel, em tudo, supera o silêncio de Deus, no Calvário e mostra-nos como ser cristãos da soleira da Cruz, no Calvário, até as luzes plenas da Vitória desta mesma Cruz: A nossa participação na Ressurreição do seu Amado Filho!

 

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos
Doutor em Letras (PUC-RIO) e Doutor em Teologia Bíblica (Univ. Gregoriana – Roma)

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