Detalhe de Conteúdo

‘Música Sacra pós conciliar: memória e perspectivas’

Postado por: 08/09/2017 0 Comentários 454 views

A música possui um papel fundamental no rito litúrgico e, consequentemente, os músicos assumem uma grande missão: testemunhar o Evangelho em forma de canção. Juntos, música e instrumentistas podem aproximar o coração dos fiéis ao de Deus.

Para refletir a importância da música na liturgia e na arte, no ano em que se comemora os 50 anos do documento “Musicam Sacram”, em 1967, pós-Concílio Vaticano II, a Rádio Catedral apresentou um programa especial sobre o tema, intitulado “Música Sacra pós conciliar: memória e perspectivas”.

Fizeram parte da mesa o doutor em teologia bíblica e em Letras padre Pedro Paulo Alves dos Santos, o qual conduziu o debate; o Doutor em liturgia, presidente da Comissão Litúrgica da Arquidiocese do Rio e pároco da Igreja Nossa Senhora do Brasil, monsenhor Antônio José de Moraes; o regente titular da Schola Cantorum do Seminário Arquidiocesano de São José, Antônio Pedro de Almeida, Mestre em música (UFRJ), e, por fim, o Doutor em música, Joaquim Inacio de Nonno, Professor adjunto na Escola de Música da UFRJ.

Padre Pedro Paulo Alves dos Santos – O que é música sacra?

Monsenhor Antônio José de Moraes – Esse é um termo muito generalizado. Toda música que diz respeito ao sagrado, nos seus vários níveis de melodia e de composição, deve ser considerada como música sacra. Creio que houve uma evolução a respeito da compreensão acerca da música sacra, que estava reduzida ou compreendida apenas sob um aspecto. Se não me falha a memória, os estudos começaram com os luteranos, que queriam diferenciar a música profana de uma música religiosa, porém, melodicamente, ela não tinha uma definição, mas uma diferenciação. Com isso, não se quer dizer que na Igreja Católica não havia distinção, havia a música gregoriana como tantas outras no ramo. Com o Concílio Vaticano II começou-se a ter uma perspectiva mais abrangente da celebração, e, de tal maneira que o termo continua a ser usado, marcando ‘música religiosa’ – que é a música catequética, e é o gênero que hoje prolifera tanto. Em nossa história, temos o padre José Alves que, para mim, é o grande apresentador e construtor dessa linha litúrgica. Tive a honra de tê-lo como professor de latim e de música quando garoto, ainda no seminário. Suas composições são sem iguais, porque elas não cantam para algo na liturgia, elas cantam a liturgia. O que percebemos hoje é que se canta um cântico de entrada, substituindo a antífona; o Cântico das Ofertas, da Comunhão, o cântico do ordinário da missa que se perdeu muito, mas tem sido recuperado. Se não tivermos em mente o espírito da liturgia não compreenderemos qual o papel da música e o de qualquer outra coisa na celebração.

Antônio Pedro de Almeida – É sempre a liturgia que faz os ditames e não a música. Ela está submetida ao ritual, sobretudo, na música litúrgica. Existe, de fato, um leque muito vasto dentro dessa concepção do que é a música sacra, porque ela em si é a que traduz um objetivo, que é o louvor, e a referência do ser humano com Deus. Dentro desse processo, existem várias vertentes. Na Idade Média, começou-se a ter alguma divisão acerca disso, com a instituição das escolas de canto (a ‘Schola Cantorum’), que está mais ligada à música litúrgica, ao ritual, à missa, à Liturgia das Horas. E, existiam já nessa época as músicas que estavam ligadas aos devocionais, como as ladainhas, as peregrinações e as bênçãos do Santíssimo Sacramento. Havia uma série de outras manifestações musicais ligadas à espiritualidade, mas não intimamente à liturgia da missa ou à Liturgia das Horas. De fato, esse tipo de manifestação ficou mais por conta do povo, e a Schola Cantorum permaneceu com um papel proeminente dentro da música litúrgica (sacro-litúrgica) ligada ao ordinário. As manifestações devocionais também tinham uma ligação muito forte com a Igreja que não se opôs e permitiu que elas fossem realizadas e, consequentemente, essas ficavam mais ao encargo do povo.

Padre Pedro Paulo – O que dizer sobre ‘musicalidade’ e ‘espiritualidade’ no campo da música sacra?

Inacio de Nonno – Musicalidade é um fator inerente ao ser humano, ou ele é musical ou não é. Então, como juntar espiritualidade e musicalidade? É importante que se entenda o que tem de ser feito em termos de composição e de execução: de uma maneira respeitosa, singela, em direção à celebração, é algo sagrado. Referimo-nos à composição, o que se passa na cabeça de um compositor de música sacra. Qual o nível de espiritualidade que teria esse compositor para compor? Portanto, é fundamental que haja não só o conhecimento da liturgia, mas um conhecimento musical pregresso que possa suscitar composições, arranjos e melodias que sejam condizentes com o espírito da celebração.

Padre Pedro Paulo – Já que o programa, hoje, é dedicado à memória, o que dizer da música, em geral, obviamente, antes do Concílio? Ou: o que muda a partir do Concílio Vaticano II, no campo musical?

Monsenhor Moraes – Antes do Concílio, a celebração litúrgica era da competência do padre. Em consequência, as pessoas presentes assistiam, e isso implicava em ter algo que as atraíam, porque elas estavam propriamente alheias ao que se passava no altar, de tal maneira que se multiplicaram as devoções, os cânticos devocionais, no ambiente mais sofisticado, mais erudito, os grandes concertos de música sacra, que dão um ar de solenidade. O Vaticano II é, de fato, de uma inspiração divina fora de série, porque não estava preocupado dentro daquela realidade em corrigir ‘isso’ ou ‘aquilo’, diante das pressões que ocorreram após o Concílio de Trento. O Vaticano II faz uma aproximação dessa renovação que advém do conhecimento de toda a tradição que até o Concílio de Trento não se conseguia por questões de pesquisa. O Vaticano II chega às fontes e, ao chegar a elas repõe todo o espírito da celebração e constrói, no embate natural das mentalidades até então vigentes, a renovação que deveria ocorrer, como continua ainda a ocorrer.

Padre Pedro Paulo – A palavra ‘fonte’ foi um tema recorrente nos anos 1980. O que são fontes? Como se pode dizer que o Concílio Vaticano II tem como critério o retorno às fontes? O que queremos dizer com isso?

Monsenhor Moraes  – Fonte é uma vertente permanente, e o Concílio Vaticano II, ainda que alguns digam que ele já se esgotou, pelo contrário, é uma fonte exaurível. Se está sempre colhendo, porque ele visa um aggiornamento como chamava o Papa João XXIII, um ‘atuar no hoje’. Nós lemos muito os documentos do Concílio, e a Bíblia Sagrada, porém não podemos permanecer com uma mentalidade de ‘beber água engarrafada’ enquanto se mora diante da fonte. Todos esses subsídios são importantes é claro, mas devemos ler o próprio Concílio, a própria Bíblia, é o fundamental. O Concílio é essa fonte inesgotável. Contudo, sem a teologia da liturgia, continuaremos levando para a liturgia o que achamos que ela está celebrando, quando, na verdade, precisamos, através dos seus ritos, gestos, palavras, haurir o que ela diz que está celebrando. A celebração é também uma fonte sempre nova. É sempre a mesma coisa em toda a ação ritual, mas a intensidade, o que ela revela em cada celebração é sempre única, é algo sempre novo e que nos encontra também em circunstâncias próprias do momento.

Antônio Pedro – É importante dizer que o então Giuseppe Sarto, patriarca de Veneza, e depois Papa Pio X, já no momento do seu cardinalato produz um documento no qual estabelece normas acerca da música sacra, almejando uma melhor espiritualidade na comunidade. Depois, já como Pio X, através do “Motu Proprio Tra le sollecitudini” em 1903, cria uma série de normas que devem ser cumpridas acerca da música. E o Concílio Vaticano II estabelece uma conexão com este documento de Pio X. O Concílio não vem em uma inspiração do nada, as fontes são inesgotáveis e estão prontas para nos servir. Então, obviamente, o “Motu Próprio” e o documento anterior serviram de inspiração para o Concílio Vaticano II. Portanto, a música litúrgica não caiu do céu. O objetivo da reforma era, justamente, controlar a produção de música sacra com o perfil estético-operístico. Para o movimento cecilista, composto por músicos católicos que se empenhavam em resgatar as tradições, o principal objetivo da música, o plano era resgatar o gregoriano, através dos Monges de Solesmes, que ficaram responsáveis por toda a pesquisa, por gerar e proporcionar a inserção do gregoriano na música litúrgica.

Inacio de Nonno – O documento “Tra le sollecitudini”, do Papa Pio X, é extremamente rigoroso com relação à execução da música dentro da liturgia. A palavra ‘proibido’ aparece várias vezes no documento. Em contrapartida, quando lemos o “Musicam Sacram”, emanado do Concílio Vaticano II, há uma liberalidade muito maior, até mesmo com a inclusão das mulheres no coro, uma vez que o documento do Papa Pio X proíbe a voz feminina no coro; a inclusão de instrumentos que não seja o órgão. Há uma modificação a partir deste documento do Concílio Vaticano II; abre-se um leque de possibilidades, não só na composição como na execução da música litúrgica.

Padre Pedro Paulo – O que motivou o Congresso Internacional de Música Sacra, que aconteceu na Universidade Federal do Rio de Janeiro? Por que a UFRJ se interessou pela Música Sacra ou esse interesse já existia?

Inacio de Nonno – Qualquer manifestação musical estabelecida nos interessa na Academia, é evidente. Faz parte da nossa formação, da nossa instituição e de qualquer entidade de pesquisa, estar atento a todas as manifestações. A questão da música sacra surgiu numa conversa informal entre professores da Escola de Música, quando chegamos ao ponto em que nos questionamos sobre o que tem sido construído acerca da música sacra, sobretudo no Brasil, pós-Concílio Vaticano II. Essa pergunta foi a mola mestra que deu o pontapé inicial na ideia de realizarmos o Congresso Internacional de Música Sacra. Além disso, vendo a possibilidade de se conseguir em médio prazo a implantação de um curso de música sacra, em nível de bacharelado, dentro da universidade, fomentando a formação de músicos profissionais para agirem na Igreja, na celebração e nas paróquias, porque isso é a possibilidade de se conseguir trabalho para um número de alunos que se formam e ficam procurando trabalho. A ideia é diversificar cada vez mais o ensino de música dentro da universidade. A criação de um congresso como esse é importantíssimo para nós, para que essas vertentes da música sejam contempladas, para que haja trabalho para essas pessoas que estão se formando. A intenção é dar subsídios para formação de uma pessoa que vai lidar dentro da música religiosa, tanto católica como de qualquer outra expressão.

Padre Pedro Paulo – Sobre a memória da música sacra, na passagem do antes para depois do Concílio Vaticano II, quais são os dois nomes importantes, tanto no Brasil, de maneira especial no Rio de Janeiro, e no mundo?

Monsenhor Moraes – Os dois nomes que chamo a atenção quanto à renovação litúrgica são padre José Alves e, internacionalmente, o padre Gelineau. Creio que esses dois personagens, no Brasil e no mundo, merecem uma memória permanente. No Rio de Janeiro, além do padre José Alves, tivemos monsenhor Guilherme Schubert, num nível mais erudito, e também o Monsenhor Amaro, um grande divulgador da música litúrgica, que começava a despontar de tal maneira que seria de bom tom recuperar essa riqueza.

Padre Pedro Paulo – A partitura, escrita por quem quer que seja, só se realiza nas execuções de quem toca? Cada músico pode ter uma interpretação diferente?

Inacio de Nonno – Costumo dizer isto em sala de aula: a partitura é um pedaço de papel que não serve para nada. Não existe música numa partitura, ela existe a partir do momento que você executa aquilo que está naquele papel que foi anotado. Cada execução é uma performance, é a música se realizando, é a origem com as suas atualizações. Isso é o que chamamos de interpretação. Não no sentido de palco, evidentemente, mas no momento em que se faz a música, dentro de uma dada situação, ela é sempre única. Tal como o Monsenhor Moraes afirmou brilhantemente, que a celebração é sempre única, embora o rito seja padrão, porém cada missa tem uma maneira, um conteúdo, e isso faz com que se torne, em todas as vezes, única. É o que acontece com a música, o momento da interpretação é único, ele nunca será igual ao que foi feito na semana passada, e muito menos como será feito na semana seguinte, é uma realidade muito viva e dinâmica.

Antônio Pedro – Nunca é cristalizada. A partitura nada mais é do que um plano de caminho estabelecido pelo compositor. E esse plano de caminho pode ser realizado de várias formas, não existe uma forma calcificada. Cada vez será realizada de uma forma, por mais que se obedeçam aos tempos, à afinação, ao texto e a tudo o mais, a dinâmica se renova, de acordo com o momento em que ela está sendo realizada, de acordo com o grupo que a executa.

Padre Pedro Paulo – Afinal de contas, em que estado poderíamos nos situar na relação liturgia e música?

Monsenhor Moraes – Acredito que temos progredido muito e passamos por várias situações que mereceriam e merecem correções, não para proibições, mas para o despertar do próprio sentido da celebração. Não basta saber tocar um instrumento ou ser um compositor e letrista. Por exemplo, tivemos a figura inesquecível de Dom Carlos Alberto Navarro, que demonstra o que quero dizer. Para ele, letrista e compositor sacro, a arte de compor e escrever letras musicais estava em plena sintonia com o sentido da liturgia. Por isso, não havendo o mínimo de noção litúrgica, pode-se fazer algo muito bonito, mas não dirá respeito à celebração. Acredito que, também hoje, estamos muito próximos de tantas correções de visão e percepção do Concílio, porém sempre precisamos melhorar, olhando para a fonte, para podermos interpretá-la no nosso presente.

Padre Pedro Paulo – Este programa foi uma janela aberta sobre um tema que merece muito mais elementos e discussões. Não é um adendo ou adereço, é a liturgia. É ela quem canta. É o mistério que, através da arte, nas suas várias faces, deixa Deus falar a nós.

Flávia Muniz

Sobre o Autor

Rádio Catedral

Website:

DEIXE UM COMENTÁRIO

Certifique-se de introduzir a informação (*) exigida onde indicado código. HTML não é permitido